segunda-feira, 26 de junho de 2017

Não há investigação suficiente em bem-estar animal em Portugal?



Bem, o ponto de interrogação é um eufemismo diplomático, realmente acho que deveria ser um ponto de exclamação. Pode ser justo questionar se a minha opinião não é tendenciosa pelo facto de eu ser investigadora da área em Portugal e gostar de ter mais colegas. Mas posso apoiar a minha posição em dados concretos. Hoje recebi da FCT uma lista das ações COST em que falta membros portugueses – e 3 de um total de 7 são de tópicos que claramente pertencem a área de bem-estar animal. 


As ações COST são mecanismos de networking em ciência na Europa. Ao reunir investigadores de diferentes países que são especialistas num determinado tópico, através de uma ação COST pode se fazer um balanço do estado-de-arte e identificar lacunas no conhecimento e maneiras de abordar essas lacunas. Para o cientistas individual, participar numa ação COST é uma excelente oportunidade de alargar a sua rede de contactos e aprender mais.


Como não trabalho com nenhum dos tópicos em questão, não vou ocupar um dos lugares disponíveis. Mas espero sinceramente que os colegas portugueses que trabalhem com galinhas poedeiras, porcos e grandes animais de laboratório o farão!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

In memoriam: Jaak Panksepp - O cientista que fazia os ratos rir

Deixou-nos aos 73 anos o neurocientista de origem estónia Jaak Panksepp, que se dedicou ao estudo do que chamou "neurociência afectiva", focada na base neuronal das emoções. Estava previsto ser key-note speaker do próximo congresso da UFAW e queria muito ouvir a sua apresentação. Infelizmente, já não será possível.
Jaak Panksepp. Fonte: Discover Magazine.
O seu trabalho teve impacto considerável na ciência do bem-estar animal (era Baily Endowed Chair of Animal Well-Being Science, uma cátedra da Universidade de Washington), tendo sido uma grande referência para cientistas como Temple Grandin. 

Panksepp propôs que o instinto para brincar é comum nos juvenis de muitos mamíferos - incluindo os ratos -  por ser impulsionado pelas partes mais primitivas do cérebro, ao invés do córtex cerebral. E para que a motivação para brincar se tenha conservado longo de milhões de anos - não obstante o maior risco de expor os juvenis a predadores - é porque a mesma confere importante vantagens evolutivas, como as competências sociais, como explicado neste vídeo animado. Assim, Panksepp urge-nos a deixar as crianças brincar, tanto quanto possível, se queremos que tenham saúde mental e sucesso como adultos. 




De todas as suas contribuições para a ciência, sem dúvida a mais conhecida - e controversa - foi o ter proposto que os ratos e outros animais também "riem". No caso dos ratos, fazem-no com vocalizações inaudíveis para os humanos, na gama dos ultra-sons, podendo-se observar este comportamento nas brincadeiras dos  juvenis e quando lhes fazem cócegas (sim, cócegas).

Como resultado do seu trabalho em humanos e animais (como cães, ratos e cobaias) Panksepp propôs sete emoções primordiais - seeking, rage, fear, lust, care, panic, play - comuns a várias espécies (ajudando ao desenvolvimento de novos fármacos antidepressivos), não só abrindo uma janela para a compreensão do comportamento e emoções de outras espécies animais, como também mostrou o quanto nos são próximas. 

Mas nada como ouvi-lo nas suas próprias palavras.



sexta-feira, 17 de março de 2017

Imposto sobre agricultura insustentável?

Não é (ainda) uma proposta na agenda política, mas a ideia foi recentemente lançada pelo Professor Emérito Frank Berendse da Universidade de Wageningen dos Países Baixos numa carta na revista Nature: As the debate heats up over the European Union's new Common Agricultural Policy (CAP) for 2020, I propose introducing a progressive tax that is based on farmers' purchase per unit area of pesticides, antibiotics and imported animal feed such as soya beans (…). Farmers practising sustainable management would be rewarded with increased sales, higher incomes and greater societal respect. (…) A progressive tax on agricultural practices that damage health and the environment would soon pay for itself. It would compensate farmers for lower production by reducing costs and increasing market share. Food prices will increase, but will lead to substantial, price-driven shifts in the sale of sustainable products.

O mapa mostra a venda de antibioticos para animais usado na produção de alimentos na União Europeia (dados de 2013, fonte European Surveillance of Veterinary Antimicrobial Consumption (ESVAC)


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Bestiário tradicional português - apresentação do livro

Animalogos não vai deixar de ser um blog sobre animais de carne e osso, mas a imaginação também tem asas!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Entrevista durante o II Encontro de Bioética da UTAD

No passado dia 19 de Novembro, fui convidado a fazer uma apresentação sobre ética da experimentação animal, a propósito do II Encontro de Bioética na UTAD. 

Na altura fizeram-me uma breve entrevista, onde me perguntaram sobre o tema em si e a sua relação com a agropecuária. Na altura fiquei um pouco surpreso mas agora que saiu a entrevista percebi que tem a ver com o âmbito do projecto para qual esta e outras entrevistas têm sido feitas. 

Fica aqui o registo.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Reflexões sobre a discussão parlamentar sobre uso de animais em ciência e alternativas

No dia 19 de Janeiro de 2017 foi discutida no Parlamento a petição "Por uma Ciência mais Rigorosa", promovida pelos "Universitários pela Causa Animal" que exigia, entre outras, que animais de laboratório e os procedimentos fossem filmados 24 horas por dia, consequência directa da "Declaration of Lisbon", a qual tinha já merecido resposta da SPCAL. Uma explanação dos argumentos desta petição pode ser encontrada aqui.

A petição tinha já sido discutida com algumas peticionárias (havendo registo áudio e uma acta), onde chegou a ser proposto que os investigadores usassem "capacetes com câmaras" enquanto trabalharam.

Esta petição levou a iniciativas da parte do 'PAN-Pessoas-Animais-Natureza' (um projecto de lei e um projecto de resolução), do 'PEV-Partido Ecologista Os Verdes', 'BE-Bloco de Esquerda' e 'PCP-Partido Comunista Português'. 

Antes de considerar estas propostas, devemos ter em conta que a actual legislação em vigor, que transpõe a Directiva 2010/63/EU, é sem dúvida a regulação mais exigente do uso de animais em ciência ao nível global, sendo que algumas das propostas discutidas ontem no parlamento era redundantes com a legislação ou irrealistas, sobretudo as de BE e PAN. Contudo, uma leitura atenta das propostas de PCP e PEV revelam uma atitude progressista, realista e baseada na promoção do desenvolvimento científico e tecnológico ao nível dos 3Rs (Replacement, Reduction, Refinement), que são de louvar.

Podem rever o debate sobre estas propostas neste vídeo de 25 minutos: 


O balanço que tenho a fazer deste debate é positivo, uma vez que trouxe à discussão no Parlamento a questão do desenvolvimento de métodos não-animais, dos 3Rs e do cumprimento da legislação em vigor. Houve ainda um momento onde não pude deixar de sentir alguma satisfação pessoal, quando o Presidente da Comissão Parlamentar para a Educação e Ciência, o Prof. Alexandre Quintanilha, mencionou o I Simpósio Nacional de ORBEA e a recém-criada RedeORBEA

Ouvir o Prof. Alexandre Quintanilha no Parlamento fez-me
querer que houvesse mais deputados cientistas
Infelizmente, os pedidos de reforço dos meios humanos da Autoridade Competente, a DGAV, não foram aprovados, o que presumo se deva a contenções de ordem orçamental. 

Havia já uma resolução aprovada - Resolução 96/2010 - aquando da discussão da construção do biotério da Azambuja, e três anos antes da publicação da actual legislação, que promovia a construção de um centro para os 3Rs, que seria muito bem-vindo. Algumas das reivindicações foram já satisfeitas pela publicação da legislação hoje vigente (DL 113/203), outras ficaram por concretizar, tendo este debate servido também para retomar a questão. 

Após esta discussão, a Assembleia deliberou votar para rejeitar a maior parte das propostas em análise (pode consultar as votações aqui). Contudo, alguns dos pontos dos projectos de resolução foram aprovados, a saber:

Projecto de Resolução  614/XIII/2.ª (PCP)  "Recomenda ao Governo a implementação de medidas no âmbito da utilização de animais em investigação científica"

Ponto 1: [A Assembleia da República recomenda ao Governo que] avalie e informe a Assembleia da República sobre a concretização das recomendações constantes na Resolução da Assembleia da República n.º 96/2010 e proceda à planificação da implementação do que ainda está por concretizar

Projecto de Resolução  612/XIII/2.ª (PEV) "Pela progressiva redução e eliminação do uso de animais para fins científicos"

Ponto 1: [A Assembleia da República recomenda ao Governo que] promova o investimento para o desenvolvimento de alternativas ao uso de animais para fins experimentais e outros fins científicos, dando cumprimento desta forma a uma efetiva implementação da política dos 3Rs, conforme plasmado no Decreto-Lei nº 113/2013.

Ponto 3: [A Assembleia da República recomenda ao Governo que] promova a divulgação de informação e a devida articulação entre as diversas entidades ligadas à experimentação animal, nomeadamente entre a Comissão Nacional e os órgãos responsáveis pelo bem-estar dos animais (ORBEA), pugnando para que nas instituições onde ainda não estejam criados estes órgãos, os mesmos sejam o mais rapidamente possível instituídos, no sentido de garantir que os protocolos autorizados e financiados, se encontram a ser devidamente implementados, maximizando assim o bem-estar animal.


Pode-se dizer, em jeito de conclusão, que Portugal deu mais um pequeno passo no tratamento ético dos animais em ciência e na promoção de alternativas. Possa a comunidade científica encontrar o devido apoio do Governo para concretizar os objectivos aqui definidos num futuro próximo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Debate parlamentar sobre experimentação animal e 3Rs

Fonte
Decorre hoje (a partir das 15h, logo a seguir a curto debate com o Ministro da Saúde) uma discussão na Assembleia da República de particular interesse para a nossa comunidade ligada ao uso de animais e aos 3Rs, que pode ser seguida on-line no canal ARTV. Podem consultar aqui a agenda e documentos em discussão (mais para o fundo da pagina).


Estão em discussão:

Petição n.º 141/XIII/1.ª
Da iniciativa de Gonçalo Faria da Silva e outros - Solicitam mais rigor, transparência e objetividade na ciência que recorre ao uso de modelos animais na investigação, maximizando o bem-estar animal e o retorno do investimento público

Projeto de Lei n.º 372/XIII/2.ª (PAN)
Introduz normas mais rigorosas no que diz respeito à utilização de animais para fins de investigação científica

Projeto de Resolução n.º 612/XIII/2.ª (PEV)
Pela progressiva redução e eliminação do uso de animais para fins científicos

Projeto de Resolução n.º 614/XIII/2.ª (PCP)
Recomenda ao Governo a implementação de medidas no âmbito da utilização de animais em investigação científica

Projeto de Resolução n.º 615/XIII/2.ª (BE)
Medidas para a proteção de animais para fins experimentais e outros fins científicos

Projeto de Resolução n.º 616/XIII/2.ª (PAN)
Recomenda ao Governo a alocação de uma percentagem dos fundos de inovação e desenvolvimento da despesa pública distribuídos pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) em métodos não animais