sexta-feira, 26 de julho de 2013

O meu gatinho versus o lobo-mau?

Que somos muito inconsequentes na maneira como lidamos com os outros animais não é surpresa para quem se interessa pelas questões de ética animal. Algumas das incongruências podem ser explicadas pela escala sócio-zoológica. Desenhada de uma perspetiva antropológica pelos investigadores Arluke and Sanders, esta escala é uma maneira de descrever e de sistematizar a nossa tendência no chamado mundo ocidental de favorecer alguns tipos de animais e desfavorecer outros. Muito resumidamente, tendemos a colocar mais alto os primatas, os animais de companhia que costumam ser membros da família (cães e gatos) e os grandes carnívoros, ficando os outros animais domésticos no meio e animais que são considerados pragas em baixo.

Vou trazer para a discussão dois casos com que me tenho cruzado recentemente, e que para mim são novos. Acho que podem ser entendidos à luz da escala sócio-zoológica, mas não deixam por isso de ser incongruentes.

A primeira incongruência deriva de uma página pessoal no Facebook, onde se calhar não devíamos estar à espera de coerência. Não deixa contudo de ser interessante do ponto de vista ético. Sendo a página em sueco e norueguês, não coloco links aqui, mas vou resumir. Que a autora queira partilhar a sua opinião é evidente. Basta ver os primeiros 10 posts para perceber que se opõe à politica de proteção dos lobos – abundam os links para relatos de gado atacado por lobos. Um destes mostra um pequeno vídeo de uma rena gravemente ferida e ainda viva, sob o cabeçalho “politica de proteção de carnívoros causa grande sofrimento”.

Cada um tem direito a sua opinião, e não há duvidas que a presença de carnívoros e presas ao mesmo local resulta na morte e sofrimento dos segundos. Esta é uma questão que a autora é capaz de não ter explorado até o fim, pois percebe-se também de outros posts que tem um gato que anda fora da casa e que desaparece durante dias, às vezes semanas. Mas alimentando-se de quê? 

Bye, bye, rhino, é o título de um post publicado há um mês no blog de Journal of Medical Ethics. A pergunta colocada é se o problema da extinção do rinoceronte-negro-ocidental se torna mais grave por ser associado à procura do seu corno para a produção de um ‘medicamento’ sem efeito clínico. Ou seja, seria mais eticamente aceitável extinguir uma espécie à procura de um medicamento altamente eficiente? Fora da (não abordada mas para mim óbvia) questão da idiotice que seria matar a galinha de ovos de ouro, o autor tende a responder que não seria necessariamente mais aceitável:
It’s conceivable that providing extra good for humanity might turn out to be a defensible thing to do.
One other thing that we ought to question, though, is how much of an obligation there is to provide that extra good for humanity. If there is an obligation, then it might follow that, however unpleasant it is, we ought to hunt – to extinction, if that’s how things shake out. At the very least, we’d have more of a defence.
But is there such a duty – in essence, a duty of beneficence? I’m not sure. I think that there’s a fairly straightforward duty not to cause harm; but to fail to provide benefit is not the same as to cause harm. By not acting beneficently, we don’t make anyone worse off than he otherwise would be – we just fail to make him better off. That doesn’t strike me as blameable.
The point is that beneficence often comes at a price; and so we always have to think about whether a particular instance of beneficence is worth it. The (slightly strined) example in which benefiting humans means extinguishing another species might provide us with an example of a situation in which it’s not worth it. (Extinguishing smallpox might be slightly different, inasmuch as that’s a species that is a direct threat in a way that rhinos aren’t.)
Não discordo necessariamente com o autor. Mas a pergunta para mim inevitável é: e a experimentação animal? Se não é justificável levar uma espécie à extinção para curar pessoas com cancro (exemplo usado no post), com referência à não-obrigação de beneficiência "By not acting beneficently, we don’t make anyone worse off than he otherwise would be – we just fail to make him better off.  That doesn’t strike me as blameable" o que acontece com a habitual ética de justificação de uso de animais na investigação biomédica? 

 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Provedoria dos Animais em Lisboa

Foi com entusiasmo que soube da criação, no passado dia 18 de Junho, da Provedoria dos Animais da Câmara Municipal de Lisboa. Esta medida vem acompanhada da mudança de designação do Canil/Gatil de Lisboa para Casa dos Animais (com uma nova estrutura orgânica) e da criação do Grupo de Trabalho para a Casa dos Animais, que integra a recém-empossada provedora Marta Rebelo, o Director Municipal de Ambiente Urbano da autarquia, Ângelo Mesquita e a Bastonária da Ordem dos Médicos Veterinários, Laurentina Pedroso (que preside ao grupo).

Não penso que esta decisão do município de António Costa se trate de uma estravagância de uma tal esquerda progressista (embora isso caia bem ao seu eleitorado). O tema é sério e já aqui demos conta do interesse crescente na área jurídica do direito animal  (que não deve ser confundida com a área filosófica dos direitos dos animais), assim como de alguns dos seus conceitos fundamentais.

A provedora não apresentou ainda um plano de trabalho, estando a decorrer um período de consulta com as associações zoófilas a operar no terreno. Existe também um apelo para se formar o Grupo de Voluntários da Casa dos Animais de Lisboa, assim como para o Grupo de Juristas dos Animais de Lisboa. Quem estiver interessado pode contactar a provedora Drª Marta Rebelo pelo e-mail provedora.animaislisboa@gmail.com.

O meu entusiasmo é, ainda assim, limitado. Em primeiro lugar porque o papel da provedora parece cingir-se aos animais de companhia (vulgo cães e gatos); bem sei que o município de Lisboa é essencialmente urbano mas estou certo de que no maior município do país haverá mais do que cães e gatos para proteger ou gerir (recorde-se a polémica na Câmara Municipal do Porto sobre o controlo de animais errantes). Em segundo lugar, basta percorrer a página do Facebook da provedora para se perceber de que pouco valem as boas intenções na ausência de um enquadramento legal rigoroso. E por isso a provedora se vê muitas vezes limitada a um papel meramente consultivo. Por fim, um comentário pessoal. É bem visível que a Drª Marta Rebelo procura fazer o seu papel com brio e profissionalismo. Mas procurar responder pessoalmente por escrito a todas as solicitações de um município com quase 550 mil habitantes parece-me irrealista e quiçá ingénuo. Até porque muitas das perguntas feitas à provedora nada têm de ingénuo e parecem mais visar apontar-lhe o dedo do que procurar esclarecimentos genuínos (veja-se, p.e., a forma  defensiva - quase expiatória - como a provedora justifica a suas opções alimentares - 20 de Junho). São, por isso, imensos os desafios em termos de comunicação e transparência aqueles que a Provedora dos Animais enfrenta e que já lhe levaram a um desabafo após uma semana em funções (26 de Junho). Fora os demais desafios... Um bem haja!

domingo, 21 de julho de 2013

Parabéns Nuno (e Peter) !

Nuno Franco (à esquerda) na companhia de John Webster (ao centro) e Peter Sandoe (à direita).

O ANIMALOGOS associa-se a outras manifestações de reconhecimento público e dá os parabéns ao Nuno Franco pelo prémio de Jovem Investigador da UFAW (Universities Federation for Animal Welfare), recebido no passado dia 4 de Julho em Barcelona. Uma descrição mais pormenorizada do trabalho desenvolvido pelo Nuno no bem-estar em animais de laboratório pode ser encontrada nos recortes feitos pela comunicação social mais especializada (ver aqui, aqui e aqui).

Do programa de doutoramento do Nuno - realizado sob a orientação da Anna Olsson no IBMC -  resultaram diversas publicações em revistas científicas de renome, tais como a PLOS Pathogens e a PLOS One. De destacar também a revisão histórica sobre o uso de animais em experiências biomédicas, que tem granjeado grandes elogios não só por parte da comunidade científica mas também de organizações internacionais de protecção animal (algo raro e que muito contribui para a elevação do diálogo sobre as questões éticas em experimentação animal).

O Professor Peter Sandoe, filósofo dinamarquês e também ele colaborador regular do Animalogos, foi agraciado com o prémio de carreira (UFAW Medal for Outstanding Contributions to Animal Welfare Science) que partilhou com o Professor John Webster, médico veterinário britânico tido como o pai do conceito das cinco liberdades.
 

terça-feira, 16 de julho de 2013

O cão é o melhor amigo do homem...mas desde quando?

A comunidade científica ainda não resolveu definitivamente a questão de quando, onde e como foram domesticados os primeiros cães a partir do lobo cinzento, o Canis lupus

Têm sido encontrados esqueletos de lobos junto a vestígios humanos com até cerca de 500.000 anos, o que significa que estes co-existiram com várias espécies do Género Homo, incluindo o Homo Erectus, e muito provavelmente foram caçados pela sua carne e pelagens.

Estudos do ADN canino e do lobo sugerem que a divergência genética entre estes terá surgido há mais 100.000 anos, ou seja,  várias dezenas de milhares de anos antes dos primeiros humanos modernos chegarem à Europa e terem extinguido animais como o tigre-dentes-de-sabre ou o mamute. Esta data ultrapassa largamente a idade dos mais antigos registos arqueológicos de proto-cães, que remontam até -36.000 anos. Uma possível explicação é que poderá ser impossível distinguir entre vestígios de lobos e dos primeiros cães, cujas diferenças poderão não ter sido ao nível da morfologia, mas sobretudo ao nível do comportamento, que tem uma base biológica e, consequentemente, genética. 

É provável que crias órfãs de lobo tenham frequentemente sido adoptadas e criadas por humanos como um costume cultural no Paleolítico. Tal não significava contudo verdadeira domesticação, mas antes adestramento de animais selvagens, que assim que começassem a manifestar maior agressividade (o que é previsível num animal selvagem), seriam afastados ou mortos. Apesar de haver quem considere que foi este hábito que levou ao surgimento do cão, é mais consensual a teoria que o processo inicial de domesticação se tenha dado por "auto-domesticação", ou seja, por força da vantagem reprodutiva daqueles melhor adaptados - por serem mais tolerantes à presença humana e/ou terem uma menor distância de fuga, por exemplo - para viver de restos de comida deixados  pelas primeiras aldeias. A ser verdade, não deixa de ser curioso que tenha sido o cão, e não o homem, o primeiro a "inventar" a domesticação. 

Foto de Robert Clark para a National Geographic 
(é evidente aqui a Neotenia resultante do processo de domesticação, 
tendo o cão características físicas marcadamente infanto-juvenis)
A domesticação propriamente dita resulta de um processo de modificações genéticas, morfológicas e comportamentais de uma determinada espécie por acção do homem. Assim, para conseguir as respostas, deveremos estudar no seu conjunto os indícios genéticos, paleoarqueológicos e biogeográficos. 

A revista Nature de 18 de Junho revela que, não obstante ser consensual entre os geneticistas em que aspectos genéticos os cães e os lobos diferem, há grandes divergências relativamente a quando e como se deu o processo de domesticação, e qual a relação temporal entre essas alterações genéticas e o processo de domesticação. Isto é, se foram um efeito da domesticação, ou a sua causa inicial (a tal "auto-domesticação"), ou se tal variou consoante os traços genéticos e as circunstâncias históricas e geográficas em questão.

Indo ao encontro da hipótese que o advento da agricultura no Neolítico serviu de catalisador para o processo de domesticação propriamente dito, Erik Axelsson e Kerstin Lindblad-Toh propuseram este ano num artigo que o aparecimento há 10.000 anos de genes para a digestão do amido - que terá permitido viver comensalmente de restos de alimento e colheitas dos seres humanos - terá ditado a separação destes canídeos dos seus antecessores exclusivamente carnívoros, dado subsequentemente origem  à sua domesticação. 

Greger Larson, arqueogeneticista da Universidade de Durham contesta veemente esta conclusão, dados os registos arqueológicos de ossos similares aos de cães modernos que precedem em vários milhares de anos a data proposta por Axelsson e Lindblad-Toh (distinguir ossos de cão e de lobo é no entanto tão mais difícil quanto mais recuarmos no tempo), situando assim o momento da domesticação no Paleolítico Superior. Larson argumenta - e tendo a concordar com ele - que não há razão para pensar que a domesticação do cão não possa ter precedido o aparecimento destes genes em particular, pelo que seria infundado apontar este acontecimento, ainda que importante, como equivalente ao início da domesticação.

Atendendo às provas arqueológicas, a gradual aproximação dos lobos ao homem deu-se provavelmente em acampamentos semi-sedentários de caçadores-recolectores, e portanto num período pré-agrícola. O advento da agricultura poderá ter tido, não obstante, um importante papel na diversificação das diferentes linhagens de cães, uma especialização para tarefas como guardar rebanhos, ajudar na caça ou proteger a comunidade.

Diferentes raças caninas, fotografadas por Robert Clark para a NatGeo (fonte)
Mas há quanto tempo se iniciou o processo de domesticação, afinal? 

Dados recentes publicados por cientistas chineses (Wang et al, 2013) fazem recuar a domesticação do cão até há -32.000 anos na China, região onde actualmente não existem lobos selvagens, mas que tinha já sido proposta como provável origem para o cão. Creio, no entanto, que a existência de um momento e local exacto para a domesticação de lobos em cães seja algo difícil de aceitar para a generalidade da comunidade científica, no seio da qual é mais ou menos consensual que este processo foi bastante complexo, tendo ocorrido mais do que uma vez ao longo da história, em mais de que um local e a partir de mais que uma população de lobos. Ademais, desde os anos 90 que estudos genéticos apontam  para a possibilidade de um frequente cruzamento de cães com diversas populações locais de lobos (e, portanto, de diferentes sub-espécies) ao longo dos tempos, o que poderá ter sido uma das causas para a enorme variedade genética encontrada nestes últimos. Isto é corroborado por um artigo recente (ainda em fase de pré-publicação, mas disponível em versão preliminar no arXiv), e que propõe o início da divergência genética entre lobos e cães para um período situado entre - 11.000 a -16.000 anos. 

Face a esta controvérsia, assiste-se agora a uma autêntica corrida entre equipas de investigadores para  serem os primeiros a apresentar dados que compararem material genético extraído de fósseis antigos de cães e lobos paleolíticos. A competição será aguerrida, uma vez que espécimes de fósseis deste tipo são muito raros, mas é consensual que esta abordagem trará uma nova luz a esta complexa questão.  

segunda-feira, 8 de julho de 2013

QBA - Qualitative Behaviour Assessment


Não são muitos dos cientistas que podem se gabar de terem estabelecido um método próprio para a sua área de estudo. Uma destas, da área da etologia aplicada e bem-estar animal, vai estar em Lisboa dia 18 de Julho para uma workshop sobre avaliação qualitativa de comportamento – Qualitative Behaviour Assessment ou QBA como se tem tornado mais conhecido o método desenvolvido por Françoise Wemelsfelder. 

Françoise Wemelsfelder doutorou-se em etologia na Universidade de Groningen em 1993, num estudo sobre tédio em animais. A escolha de tema foi corajosa e pouco convencional, características que têm marcado todo o trabalho da etóloga. Investigadora do Scottish Rural College desde há mais do que 10 anos, tem dedicado a maior parte da sua carreira até data ao desenvolvimento de um método para avaliar o estado emocional de animais.

O método QBA baseia-se na ideia da Françoise Wemelsfelder que o animal expressa o seu estado emocional ou disposição através da sua maneira de se movimentar, e que precisamos de observar o animal como um todo e não apenas quantificar por quanto tempo que ele executa um comportamento ou outro. QBA difere dos habituais testes de comportamento em que o investigador recorre a um painel de observadores para recolher dados sobre o comportamento do animal em estudo. Portanto, o observador não quantifica o comportamento do animal diretamente mas antes a interpretação dos observadores. Estes podem observar o animal diretamente ou através de gravações de vídeo, e dar uma pontuação às diferentes características do animal. A pontuação pode ser numérica e seguindo uma escala pré-estabelecida, ou em alternativa os observadores podem atribuir as suas próprias descrições. Trata-se de descrever os animais em termos de características como ‘nervoso’, ‘curioso’, ‘ansioso’, ‘agitado’, ‘relaxado’, ‘irritado’ etc.

A ideia é que esta é uma abordagem integrativa que permite reunir mais informação do que simples quantificações de comportamento. Nas palavras da investigadora:
The qualitative assessment of behaviour is based upon the integration by the observer of many pieces of information that in conventional quantitative approaches are recorded separately, or are not recorded at all. This may include incidental ehavioural events, subtle details of movement and posture, and aspects of the context in which behaviour occurs. In summarizing such details (...) qualitative behavioural assessment specifies not so much what an animal does, but how it does it. (Wemelsfelder et al 2001 Animal Behaviour 62, 209-220.)
O método foi inicialmente visto com muito ceticismo por parte de investigadores habituados a usar métodos quantitativos e que não envolvem uma componente subjetiva. Françoise Wemelsfelder e os seus colaboradores têm investido muito trabalho em demonstrar a capacidade do método de gerar resultados que podem ser repetidos, e mais recentemente em valida-los versus outros indicadores de bem-estar animal.

Françoise Wemelsfelder vem a Portugal no âmbito do projeto AWIN – Animal Welfare Indicators. A workshop tem lugar dia 18 na Faculdade de Medicina Veterinária em Lisboa, com inscrição gratuita mas obrigatória, para psianimal.geral@gmail.com.