segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Last Christmas I gave you a dog

É má ideia oferecer um cão (ou outro animal de companhia) a quem não tenha capacidade de assumir o compromisso de cuida-lo até o fim da vida, assim como não se deve comprar ou adotar um cão sem este compromisso.

Mas há um problema em si com o facto de oferecer um animal de companhia? Esta pergunta é colocada num recente artigo publicado na revista Animals. O que motiva a equipa de autores, de American Society for the Prevention of Cruelty to Animals de investigar o assunto, foi a prevalência da ideia que não se deve oferecer um animal como prenda.

A equipa analisou resultados de uma sondagem feita nos Estados Unidos, focando nos 222 entrevistados que afirmaram ter recebido um cão ou um gato como prenda. Perguntas subsequentes abordaram o envolvimento na escolha da prenda, afinidade com o animal e eventual abandono do mesmo.

Os resultados desta investigação são muito limitados pelo facto de não haver um grupo de comparação: não se falou com pessoas que tinham adquirido um animal de companhia por iniciativa própria. É bom saber que a maior parte dos entrevistados afirmaram gostar tanto ou mais do animal do que se tivesse sido adquirido pelo próprio, e que na maioria dos casos ainda mantinha o animal. Mas diz pouco enquanto não sabemos a informação equivalente de quem não recebeu mas adquiriu o seu animal. Convence um pouco mais quando cita outros estudos em que a razão de abandono foi investigada, sendo por exemplo alergias ou falta de tempo causas muito mais comuns do que o facto de ter recebido o animal como prenda.

Se não estivesse neste momento ocupadíssima com o que tem que ser ultimado antes do Natal (dentro do qual não consta a compra de um animal de companhia!), passava agora a ler o estudo que American Humane Association acabou de publicar, sobre os fatores que influencia a manutenção ou não de um animal obtido de um centro de recolha. Mas podemos todos aproveitar os dias mais calmos para lê-lo para voltar a falar do assunto logo no ano que vem.

Até então (e com uma lufada dos anos 80) votos de Boas Festas a todos os leitores do animalogos!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Falar com o público sobre a experimentação animal


À luz de acontecimentos como a recente libertação de cães de laboratório no Brasil e o subsequente debate, torna-se evidente o desconhecimento geral sobre a experimentação animal. Quando a maior parte do público não sabe quase nada sobre o que é um biotério, sobre como se realizam experiências, sobre o propósito dos estudos com animais, sobre o potencial e as limitações de métodos alternativos, é fácil manipular opiniões num sentido ou noutro. E não é num clima de debate aceso que se deva fazer a comunicação que vise preencher lacunas de conhecimento. Um dos argumentos de quem se dedica a comunicar sobre experimentação animal é que os cientistas que usam animais não devem esconder este facto, devem antes pelo contrário comunicar claramente o papel que animais têm na sua investigação.

Neste contexto, queria chamar a atenção para a publicação recente de um livrinho por um grupo de investigadores da Universidade de Coimbra: "Células Estaminais: O que são, Onde estão?, Para que servem?" e que emana de uma serie de pequenas crónicas no Diário de Coimbra que visa “contribuir para uma população mais informada que emitirá opiniões e tomará decisões mais conscientes sobre a aplicação das células estaminais”. Quem começa a ler o livro num lado, encontra estas crónicas, quem começa do outro encontra a - já internacionalmente comentada - banda desenhada  Uma Aventura Estaminal.  

O livro foi enviado para todos os assinantes do jornal Público (foi assim que o recebi) e é em si um bom exemplo de comunicação de ciência de um tema complexo – células estaminais. Mas a razão para o comentar aqui no Animalogos é o facto do uso de animais de laboratório estar expressa em vários contextos no livro, a banda desenhada incluída.

Por exemplo, no seu texto sobre a descoberta de novos medicamentos, a farmacologista, Cláudia Cavadas aborda um tema que muitas vezes surge no debate sobre experimentação animal: o papel de métodos diferentes no desenvolvimento e nos testes de medicamentos:
"Para que uma nova molécula passe à categoria de fármaco eficaz e seguro, existe um longo percurso, de pelo menos 10 anos. Altamente dispendioso, em que só uma pequena percentagem das moléculas que parece promissora em laboratório chega ao mercado. Este fracasso resulta numa cada vez menor investimento em moléculas novas e, em especial, no desinteresse no desenvolvimento de novos fármacos para patologias com baixa incidência como é o caso das doenças raras. Antes de passarem aos testes clínicos, as novas moléculas têm que passar diversos testes laboratoriais (ensaios pré-clínicos) para demostrar a sua eficácia e a sua não-toxicidade, quer recorrendo a células animais ou linhas celulares mantidas em condições apropriadas, quer recorrendo, numa fase posterior, a experimentação animal. (…) No entanto, os resultados nestes modelos nem sempre são observados no homem, isto é , compostos que mostraram resultados promissores num modelo animal de determinada patologia podem não ser eficazes no homem. Assim, milhares de moléculas promissoras não passam esta fase. É fundamental qu sejam desenvolvidos ensaios pré-clínicos que encurtaram o tempo de de descoberta e que os resultados obtidos prevejam com maior aproximação possível o que vai ocorrer nos doentes. (…) (A)s experiências com células diferenciadas a partir das células estaminais poderão não substituir outros modelos celulares, já bem validados, nem a experimentação animal, mas juntamente com estas metodologias vão contribuir para que se encontrem novos fármacos de uma forma mais rápida e eficaz."
Se queremos que haja um debate informado sobre experimentação animal, é fundamental que o tema surja não apenas nestes debates mas que também faça parte da comunicação de ciência, assim como neste livro da autoria de João Ramalho-Santos, Inês Araújo, Luís Pereira de Almeida, Lino Ferreira e Cláudia Cavadas, com ilustrações de Fernando Correia e André Caetano.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

"No compres ese perro"

Crónica do Arturo Pérez-Reverte. Todos podemos imaginar o conteúdo, todos conhecemos a problematica que retrata. Natal, prendas, crianças que pedem, adultos que possam querer fazer-lhes a vontade.

Mas ninguém como um escritor para contar o que se segue:

No aparece y desaparece cuando conviene. Es un miembro de la familia con derechos y necesidades, que exige pensar en él cuando se planean vacaciones, e incluso una simple salida al cine o a un restaurante. A eso añádele la educación. Un perro mal educado puede convertirse en una pesadilla familiar y social. Además, cada uno, como las personas, tiene su carácter. Punto de vista y maneras. Eso exige un respeto que no todos los humanos somos capaces de comprender.
A estas alturas, sabes dónde voy a parar. Si eres de esa materia miserable de la que estamos hechos buena parte de los seres humanos, acabarás abandonándolo. Un viaje en coche a un campo lejano, una gasolinera, una cuneta.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Beagles, o Instituto Royal, experimentação e activismo animal: a polémica no Brasil

[NOTA: Este artigo foi também publicado na revista Veterinária Actual de Fevereiro de 2014]

O uso de cães em investigação biomédica tem sido causa de forte comoção social desde o advento da medicina científica no séc. XIX até aos dias de hoje (para uma revisão histórica deste tema, recomendo este meu artigo). Assim, enquanto o uso de animais em ciência é aceite pela generalidade do público - desde que justificado e em respeito pelo bem-estar animal - o uso de cães é habitualmente alvo de maior contestação, quer na Europa (como atesta o último relatório do Eurobarómetroquer no Brasil, país onde no passado dia 18 de Outubro um instituto científico em São Paulo, o Instituto Royal, foi invadido por mais de uma centena de activistas que levaram consigo 178 cães das instalações, da raça Beagle.

Os activistas, sob o pretexto que os animais estariam em perigo eminente (algo que a confirmar-se os ilibaria de qualquer sanção penal) entraram à força, retiraram os animais e vandalizaram o edifício, o que em circunstância alguma seria justificável. A polícia esteve presente, mas não fizeram detenções. Alguns dos cães levados nessa noite (presumivelmente) foram nos dias seguintes encontrados na rua.  No dia seguinte, os activistas envolveram-se em confrontos com a polícia, tendo destruído propriedade das forças de segurança. Ainda que não fosse possível prever este nível de violência, nesse mesmo mês um grupo identificado com o movimento terrorista Animal Liberation Front já se acorrentara às grades do instituto para protestar pelo uso de cães para fins experimentais.

Confrontados com a acusação de especismo por terem deixado centenas de coelhos, ratos e murganhos para trás, alguns activistas voltaram algumas semanas depois, armados, para levarem algumas caixas com roedores. Mas não sem antes agredirem, prenderem e até roubarem os vigilantes. Não obstante, milhares de pessoas apoiaram a iniciativa na página de Facebook do grupo.

Imagem dos confrontos de dia 19 de Outubro.
Este caso gerou comoção na sociedade e meios de comunicação brasileiros, que não se coibiram de ficar de um ou outro lado da contenda. Veio ainda acender o debate sobre o uso de animais em ciência, resultando num extremar de posições que, para mim que observo deste lado do Atlântico, considero preocupante. Como consequência, isto gerou uma reacção da comunidade científica, que na blogosfera tem por vezes caído também na tentação da simplificação do discurso, ou mesmo da argumentação falaciosa, ainda que longe do enviesamento cognitivo apresentado pela generalidade dos activistas da causa animal a este respeito.

Angariaram-se políticos e "celebridades" para apoiar esta causa, e deu-se amplo "tempo de antena" à principal mentora do ataque, Luisa Mell, que surge frequentemente acompanhada de cães (inclusive os retirados do Instituto Royal), um "adereço emocional" que se tem revelado eficaz. Do lado dos activistas, compara-se o instituto Royal a um campo de concentração, e a sua luta semelhante à da abolição da escravatura no Brasil. Paralelamente, defende-se o uso de reclusos para testes científicos. O ódio é alimentado nas redes sociais através da publicação de fotos de cães maltratados (mas não do instituto) e dos seus trabalhadores, incentivando ao assédio moral destes.

Cães alojados no Instituto Royal (Fonte)

A consideração moral diferenciada dada aos animais de companhia reflecte como as relações que estabelecemos com as diferentes espécies definem as atitudes que temos para com os indivíduos pertencentes às mesmas, o que em ética animal habitualmente é designada como perspectiva relacional. Segundo esta perspectiva, as nossas obrigações para com os animais irão depender do lugar na Escala Sociozoológica (proposta por  A. Arluke) que estabelecemos para eles. Assim, os animais serão mais ou menos importantes e, consequentemente, mais ou menos merecedores de consideração moral, segundo o seu ranking sociozoológico, que é atribuído com base em factores como utilidade, proximidade ou "fofura" do animal e, por outro lado, pelo quão um animal pode ser percebido como perigoso, prejudicial ou repugnante.

A maior preocupação do público pelo uso de cães ou primatas em ciência é frequentemente usada para, por proxy, promover a contestação à experimentação animal como um todo a um público que é largamente indiferente ou consentâneo, mesmo em países europeus com grande tradição de protecção aos animais. Já comentei aliás a tentativa de um partido político português de tentar manipular a opinião pública através dessa estratégia, usando imagens de cães e chimpanzés, apesar de em Portugal não serem usados nem primatas não-humanos nem animais de companhia em investigação biomédica.

Acontece ainda que os argumentos esgrimidos pelos activistas brasileiros para justificar uma acção desta natureza resultam de informação falsa, descontextualizada e/ou enviesada (alguma da qual já desmistificada aqui) e que o Instituto Royal já veio refutar veemente, mas que continua a ser alimentada, inclusive por alguma imprensa. Face a isto, convém considerar que:

1. O Instituto Royal estava devidamente licenciado pelo Conselho Nacional de Experimentação Animal brasileiro - ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia - e era alvo de inspecções frequentes. O Instituto estava ainda classificado como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público e conduzia testes de fármacos obrigatórios por lei antes de passarem à fase clínica.

2. O instituto possuía uma comissão de ética, composta por veterinários, biológos, e representantes de ONGs de protecção animal. Se o mesmo funcionava como a generalidade dos comités de ética animal, cada estudo terá que ter passado pelo crivo dessa comissão e sido autorizado previamente. O instituto também revelou dispor de nove veterinários que, juntamente com tratadores, zelavam pelos cães.

3. Um dos argumentos esgrimidos para justificar a invasão dos instituto foi que os animais estavam a ser usados para testar cosméticos e produtos de limpeza. Pura fantasia, segundo o instituto, que confirmou testar cosméticos, mas apenas in vitro.

4. Segundo o instituto, quase todos os animais estavam aptos e eram dados para adopção após a sua "vida útil" no laboratório.

5. O cenário dantesco descrito pelos activistas não reflecte, de todo, aquilo que a generalidade dos investigadores - eu incluído - conhecem do ambiente em que os animais usados em experimentação são tipicamente alojados. Relatos de salas cheias de excrementos, luzes permanentemente acesas (tortura do sono, quiçá?) com animais assustados, doentes, mutilados e, pasme-se, até mortos por congelamento são leituras profundamente ignorantes e descontextualizadas de um local onde o controlo da higiene, o ambiente e a saúde animais são da maior importância científica.

Pelo que me foi dado a entender, o ciclo de luz estava meramente invertido, o cenário caótico apresentado nada mais foi que fruto do vandalismo e os animais estavam assustados com toda a comoção causada por dezenas de estranhos, o que explica também porque havia tantas fezes no chão, reacção fisiológica típica a eventos agudos de stress. Evidentemente, o cão congelado tinha-o sido post mortem para averiguar a causa de morte. Ademais, e não obstante toda a comoção causada, nas imagens da invasão, apenas vejo animais dóceis e aparentemente saudáveis.

6. Menos de um mês depois do ataque, o Instituto Royal encerrou definitivamente as suas portas em São Paulo. "Arregaram", segundo Luisa Mell. O terror e a ignorância ganharam, na minha opinião.

Compreendo que um discurso moderado não tenha o impacto pretendido e não arrebata as pessoas para apoiar energicamente uma causa.  Mas o nível de manipulação e fabricação de informação a que se recorreu para justificar esta acção deveria envergonhar qualquer ONG séria.

Este caso tem ainda sido capitalizado por alguma da comunicação social e até políticos, sendo que a própria se filiara no PMDB, o maior partido brasileiro, três semanas antes da invasão ao Instituto Royal. A mesma, surpreendentemente, depois de ter violado a lei em frente das câmaras e da polícia, veio não obstante pedir uma investigação ao instituto sob alegação de maus-tratos aos animais. Entretanto, continua a sua campanha de desinformação no seu blog no seu blog e onde quer que possa.

É impressionante o contributo da ciência biomédica nos últimos 150 anos, muita da qual assente em estudos em animais. Estes representam, por exemplo, todos os prémios Nobel da Fisiologia e Medicina atribuídos dos últimos 42 anos (excepto o de 1983,  atribuído a Barbara McClintock) e cerca de 85% do total. Mas a ruidosa minoria que apoia esta iniciativa é alheia a estes contributos. A propósito do Instituto Royal, um representante de uma ONG disse

"Nós colocamos o problema. Discordamos da vivissecção e queremos que ela pare. Agora, não temos que dar a resposta, os cientistas é que devem encontrar alternativas viáveis para os testes".

Mas o instituto tem também a sua quota parte de culpa. Em 2012 foram alvo de uma denúncia de maus tratos, não tendo feito os possíveis para a dissipar. Percebo que qualquer informação, ainda que dada de boa-fé, pode ser descontextualizada e manipulada. Ademais, a culpa é quase inteiramente de quem faz estas campanhas difamatórias, mas a verdade é que o secretismo só gera desconfiança e torna-se um campo fértil para a fabricação e desinformação e que pode culminar no que aconteceu em São Paulo.

Cães usados em testes pela companhia farmacêutica Novo Nordisk.
Este cães tem acesso ao exterior e são passeados regularmente (fonte)
Ainda que a comunicação tenha sido ineficiente, o instituto abriu em 2012 as portas à comunicação social. As imagens divulgadas mostram que os animais eram alojados em grupos e em perfeitas condições higiénicas, num ambiente controlado e dispondo de água e comida à vontade. Não vi qualquer enriquecimento ambiental, de acordo com o que seria de esperar (ver aqui ou aqui) de um instituto com os mais elevados padrões, mas o Instituto afirma que tinham actividades recreativas para os animais.

Dito tudo isto, é de salientar que o alvo principal das minhas críticas é o recurso à desinformação, manipulação e incitamento à violência como forma de agir num estado de direito, pois não escondo o meu descontentamento com o modo como frequentemente fazemos investigação em animais, quer ao nível da qualidade da ciência conduzida em si, quer no que diz respeito ao respeito pelo seu bem-estar.

A justificação ética do uso de animais em investigação baseia-se num equilíbrio entre custo (para os animais) e benefício para a ciência e para a saúde e segurança humanas (e de outros animais). A parte do benefício é difícil de aferir neste caso porque uma busca no Google Scholar sobre estudos do Instituto Royal devolve pouquíssimos resultados, algo que não contudo de estranhar se se dedicavam a testes padronizados e não a investigação básica. Já relativamente à questão do custo, parece-me que havia margem para refinar as condições de alojamento, mas as mesmas não eram completamente desadequadas, e não há dúvidas que as condições em que estavam alojados ultrapassavam largamente as dos milhares de animais alojados hoje em canis, muitos dos quais nunca terão a sorte de conhecer um novo lar.

licença social outorgada aos cientistas pelos restantes cidadãos para conduzir estudos em animais assenta no compromisso que o mesmo é estritamente necessário e que o bem-estar animal é respeitado, balançando-se assim o custo (para os animais) e o benefício (para os humanos e outros animais). Esta "licença" requer plena confiança, que se conquista através da transparência, com abertura e prestação de toda a informação relevante ao público de um modo proactivo, as melhores armas contra a ignorância e o extremismo.

Se o uso de animais em ciência nos coloca um dilema (por definição algo que não tem solução fácil ou imediata), urge estabelecer um compromisso entre a necessidade de fazer avançar a ciência e a de respeitar o bem-estar dos animais usados. O princípio dos 3Rs - Replacement, Redution Refinement - não se afigura como uma solução mágica, mas antes como uma abordagem de compromisso e em constante evolução, que poderá um dia dar uma resposta mais satisfatória ao problema ético levantado pela experimentação animal. Muito foi já conseguido nesse sentido, mas há ainda um longo caminho a percorrer.  

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

9º congresso mundial sobre alternativas e uso de animais



http://www.wc9prague.org/World Congress on Alternatives and Animal Use in the Life Sciences é o congresso mais importante na area dos 3Rs de experimentação animal. Tem lugar de 3 em 3 anos, e em 2014 vai ser em Praga.

O website do congresso já apresenta os temas principais e resumos de trabalhos podem ser enviados até 1 de Abril de 2014.

O conjunto de oradores convidadados ilustra a interdisciplinaridade do congresso, incluindo industria, ciências da vida e saúde e ONGs.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

“Não testado em animais”

Procura este rótulo quando compra produtos de cosmética? Tal já não é preciso na União Europeia, diz Chris Flower, Diretor-Geral do Cosmetics, Toiletry and Perfumery Association no FRAME News de Outubro.

A partir de Março de 2013 não se poderão usar animais para testar produtos ou ingredientes para produtos de cosmética para venda na EU. Ou seja, todos os produtos de cosmética que podemos comprar no espaço europeu poderão, em teoria, ser rotulados como “Não testado em animais”.

O caminho até aqui foi muito longo, com sucessivas alterações da legislação e sucessivas alterações das datas de fim final de testes em animais. (Ilustrativo disto é que só a lista de alterações na versão consolidada da Diretiva de Cosméticos ocupa mais do que 2 páginas!) A falta de métodos alternativos validados e o receio da indústria das consequências de regras mais restritas do que no resto do mundo têm sido os problemas principais.

Apesar do processo ter sido lento, o facto de haver legislação que exige uma extinção faseada dos testes em animais tem sido importante para criar um mercado para sistemas alternativos de teste, como relata um artigo da revista Nature de 2011:
The company’s most important task is picking systems that scientists want to buy. For example, a European Union directive to phase out animal testing for cosmetics from 2009 has created a market for in vitro evaluation of skin irritants, so Hurel is working with the world’s largest cosmetics company, L’Oréal in Paris, to develop a replacement for a test in which a potential allergen is rubbed behind a mouse’s ear. The ‘allergy test on a chip’ holds skin and immune cells. “Once you work out all the kinks, it will be better than the animal test because you’ll use all-human materials,” says Martin Yarmush, chief scientific adviser at Hurel.
Enquanto a proibição na UE inclui tanto a realização de testes aqui como a importação de produtos e ingredientes testados noutros países, o uso de animais para testar cosméticos continua legal no resto do mundo. Leia ainda o blogger DNA Cético sobre o tema.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Avaliação de BEA em animais de produção - curso


PSIAnimal anuncia já a organização em Abril de 2014 de um curso de avaliação de bem-estar animal em animais de produção.

Neste curso serão abordados temas de especial interesse para médicos veterinários, zootécnicos e criadores, tais como: avaliação do bem-estar animal e seus indicadores, dor e analgesia, relação tratador-animal, entre outros. O curso incluirá componentes teóricas e práticas bem como uma mesa-redonda.


O curso contará com Professor Bo Algers da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, docente e investigador com uma longa carreira dedicada ao bem-estar animal ao nível nacional e internacional (entrevistado aqui no animalogos) . Entre os oradores portugueses estão docentes da FMV-UTL (Catarina Krug, George Stilwell), do FMV-ULHT (Diana Jacinto) e UTAD (Severiano Silva, Divanildo Outor Monteiro) e a investigadora Ana Vieira do projeto AWIN.

Mais informações atraves de um e-mail para informacoes.workshop2014@gmail.com.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O que deve um profissional de veterinária saber sobre comportamento animal?

Se quiser contribuir com a sua opinião para um estudo que pretende perceber as visões de profissionais nas áreas comportamento e veterinária, segue o link abaixo.

https://www.isurvey.soton.ac.uk/8917

O preenchimento do questionário (em inglês) demora cerca de 30 minutos.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Cavalos ao relento

Por Catarina Santos e Pedro Rosa. alunos do curso de pósgraduação em comportamento e bem-estar animal, ISPA

Tornou-se trivial, em Portugal, falar de animais abandonados, particularmente quando se tratam de cães e gatos que ganham rosto em apelos nas redes sociais ou se apresentam simplesmente na rua… por aí, onde são deixados e por onde deambulam ao sabor do que a realidade lhes oferece. Maiores em tamanho, mas menos vistos em número, existem também cavalos ao relento, abandonados à sua sorte ou, como conta a reportagem da SIC, a falta dela.

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2012/12/22/centenas-de-cavalos-abandonados-em-terrenos-em-sintra Diz a Lei de Protecção aos animais que é proibido “abandonar intencionalmente na via pública animais que tenham sido mantidos sob cuidado e protecção humanas”. Lê-se, complementarmente, no Decreto-lei nº 260/2012, a definição do abandono de animais como “a não prestação de cuidados no alojamento, bem como a sua remoção”para outro local.

Por vezes dentro das propriedades dos seus donos, mas muitas vezes em terrenos baldios ou na via pública, os cavalos são deixados à fome e à sede, com falta de abrigo, expostos a condições climatéricas adversas e à restrição da sua mobilidade. Estes animais, que nos habituámos a associar ao imaginário de elegância, são assim deixados num cenário de contrastante fragilidade e maus-tratos, com potenciais problemas de saúde e, por vezes, sem fuga possível.

Na Irlanda, país com uma forte tradição equestre onde a criação de cavalos cresceu em dimensão durante os anos de boom económico, a crise económica reflete-se também no tratamento dos cavalos, acabando muitos por ser abatidos ou abandonados. Não temos acesso a dados correspondentes em Portugal, mas é provável que entre as causas do abandono de cavalos estejam não só os problemas financeiros, mas também a falta de tempo e, não menos importante, o próprio sentido de (ir)responsabilidade dos seus proprietários.

Perante este cenário, que outros problemas estão associados à realidade do abandono? Antes de mais, têm existido mais denúncias de cidadãos que informam o SEPNA [6], corpo da GNR responsável pela protecção ambiental, que se dirige aos locais e comunica a situação à autoridade veterinária da autarquia. Esta deslocação nem sempre é feita em tempo útil, justificada pela falta de meios que os próprios reconhecem, prolongando assim a situação dos animais negligenciados.

O veterinário da autarquia é responsável, seguidamente, pela avaliação das condições de bem-estar do animal e pela identificação do proprietário, o que nem sempre é possível. Se a autarquia tiver contemplado no seu centro de recolha oficial de animais de companhia espaços para animais de grande porte, encaminha-os, ou como alternativa, remete-os para quintas com as quais tenha estabelecida parceria. Mas como explica o responsável do gabinete veterinário da CM de Sintra na reportagem, não existindo espaço para albergar o cavalo, o tempo escasseia na tentativa de se encontrar soluções que não se efectivam e o animal acaba por perecer onde está.

No caso do proprietário do cavalo ser identificado, cabe ao veterinário considerar se existem condições físicas para que o animal regresse ao dono. Nessa circunstância, pode ser levantado um auto pelo SEPNA, seguidamente remetido para a DGAV que tem autoridade por lei [2] para instaurar uma coima ao prevaricador, por abandono. Não sabemos com que frequência são estas coimas impostas, mas sabendo que existem responsáveis não responsabilizados, corre o cavalo o risco de ficar dependente de uma espiral processual de intervenções que nem sempre, e muitas vezes mal, se concretizam.

É urgente olhar de perto o problema e reforçar a capacidade de intervenção de todos os envolvidos em proteger o bem-estar destes cavalos, desde a denúncia do cidadão informado, à capacidade de resposta do SEPNA, passando pelas condições de acolhimento das autarquias, até à capacidade executiva da DGAV em punir quem coloca estes cavalos ao relento.

Um cavalo abandonado por um, não pode ser abandonado por muitos!



 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A suinicultura e o ambiente - Seminário 19/11

http://gallery.mailchimp.com/74d505459e43d45cb067d35e6/files/Semin_rio_Programa.pdf
Clicar na imagem para pdf do programa
A FPAS - Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores junto com a Embaixada do Reino dos Países Baixos vai organizar no próximo dia 19 de Novembro um seminário sobre A Suinicultura e o Ambiente.

Conta com intervenções das setores de política, investigação e produção tanto de Portugal como dos Países Baixos.Público-alvo será suinicultores, responsáveis pela área do ambiente das empresas suinícolas, organizações de produtores agrícolas, técnicos da administração pública, e entidades de ension superior agrícola e ambiental.

Inscrições até 8 de Novembro para fpas@suinicultura.com.

Vai participar no evento, e quer ajudar o animalogos com um relato? Por favor deixe aqui um comentário (com o seu e-mail indicado na caixa para o efeito), ou contacte-nos diretamente por e-mail.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Tem a barata o direito de não ser feita robô?


A ideia do RoboRoach é tão simples como surpreendente e provocador.

Com um kit electrónico e uma intervenção cirúrgica – pequena para quem a executa, não tão pequena para quem é sujeito - qualquer um de nós pode fazer de uma barata um robô, controlável através de um smartphone. A ambição é que a possibilidade de criar e experimentar com um RoboRoach possa estimular o interesse de crianças e jovens pelas neurociências.

P3 relata o caso, bem como as preocupações éticas levantados por alguns e refutados por outros.

É questionável se a barata tem direito a coisa alguma. Ela dificilmente passará o teste do Tom Regan para ser um ‘sujeito- de-uma-vida’, o critério estabelecido por este filosofo para atribuir o direito a um animal.

Mas o que está aqui em causa pode passar além da barata propriamente dita. Depois de me aperceber que um inseto ficava fora da filosofia do Regan, perguntei-lhe se isto implicava que os insetos deixavam de ter importância, se eu assim ficava sem argumentos para dizer a uma criança de parar de arrancar as asas de uma mosca. A resposta foi provavelmente mais de bom senso do que das profundidades da filosofia: que também se devia ter em conta a atitude que se queria promover na criança.

Achamos que a melhor maneira de ensinar ciência às novas gerações é por meio de experiencias invasivas em animais? Não vale a pena tentar manter a ideia que a natureza pode ser estudada sem a estragar por um pouco mais tempo?

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O (ig)nobre estudo do comportamento bovino

De 40 em 40 anos, a disciplina de etologia é reconhecida com um grande prémio internacional: em 1973 foi o Nobel para Konrad Lorenz, Niko Tinbergen e Karl von Frisch para “as suas descobertas acerca de organização e elicitação de padrões individuais e sociais de comportamento” e em 2013 o IgNobel para Bert Tolkamp, Marie Haskell, Fritha Langford, David Roberts e Colin Morgan. Enquanto o primeiro premio foi para trabalhos com animais selvagens, e a considerar como investigação fundamental, o segundo premio representa a aplicação de estudos de comportamento à investigação em bem-estar animal. E embora pode inicialmente parecer um premio de valor discutível, os prémios IgNobel não são atribuídos a investigação ridícula, mas “para descobertas que primeiro faz rir, depois faz pensar”.

O trabalho de Tolkamp e colaboradores foi publicado em Applied Animal Behaviour Science em 2010. A equipa aplicou pedómetros a vacas em três estudos separados (vacas de carne em estabulação livre com cama de palha, vacas de carne em pastagem e vacas leiteiras em estabulação livre com cubículos). O objetivo foi de, por um lado, testar a possibilidade de usar este equipamento para medir aquando as vacas se deitaram e levantaram, e por outro lado, testar dois hipóteses: 1) quanto mais tempo uma vaca tem passado deitada, mais provável é que ela se vai levantar e 2) quanto mais tempo uma vaca tem passado em pé, mais provável é que ela se vai deitar.

O resultado? E relatado a partir de 1:10 no vídeo, onde Bert Tolkamp ainda confirma o que eu própria sempre suspeitei sobre o estudo de comportamento de vacas.

sábado, 5 de outubro de 2013

Animal Ethics: A Practical Workshop



Uma oficina sobre ética animal com investigadores e eticistas Bernice Bovenkerk, Jes Harfeld e Clemens Driessen terá lugar em Utreque dias 29-31/10 sob a organização de AnimalConcepts.
É uma excelente oportunidade de interagir com alguns dos mais emblematicos e provocadores jovens investigadores da área vem acompanhada, com o bonus de decorrer numa das cidades mais agradaveis dos Países-Baixos.