sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Jazz for Cows



by The New Hot 5 New Orleans-style Jazz Band.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Atualidades em setembro

Novo newsletter da Eurogroup for Animals, a associação que junta os ONGs de protecção animal na União Europeia. Uma publicação sempre relevante para quem quer estar a par dos acontecimentos politicos na area de bem-estar animal nesta parte do mundo.


Um novo website sobre experimentação animal da industria farmaceutica europeia. Tecnológicamente e conceitualmente ambicioso - será que conseguem manter a diversidade de perspectivas que pretendem?

International Conference on Veterinary and Animal Ethics

Decorreu em Londres, nos passados 12 e 13 de Setembro, a primeira Conferência Internacional em Ética Animal e Veterinária (ICVAE). Tive a sorte - e a honra - de ir como bolseiro, o que me deu acesso completo ao evento por troca de uma pequena ajuda no secretariado. Estiveram presentes cerca de 100 especialistas um pouco de todo o mundo ocidental, embora a esmagadora maioria dos participantes proviessem da Commonwealth.

Para mim tratava-se de uma oportunidade única de estreitar o círculo de relações e conhecer a nata da ética animal e veterinária com quem ainda não me tinha cruzado. Em especial, tinha uma curiosidade enorme de conhecer o Bernard Rollin (na imagem), pai fundador da ética veterinária como disciplina autónoma, e John Webster, também ele pioneiro mas da disciplina do bem-estar animal. De ambos consegui autógrafos que muito vieram enriquecer a minha biblioteca pessoal (metade da minha mala eram livros, a propósito).


Quanto à conferência propriamente dita, foi pautada por altos e baixos, como se compreende num evento inaugural. A organização (exemplar) do Royal Veterinary College optou por uma abordagem de alargada abrangência temática com curtas contribuições de veterinários, filósofos, economistas, advogados, dirigentes políticos e de ONG's. Esta pletora de palestrantes diluiu em demasia a unidade da conferência (os temas foram do abate religioso ao Grand National passando pelo Human-Animal Bond em menos de uma hora) mas permitiu um ambiente alargado de discussão, que por vezes igualava o tempo da palestra que lhe dava origem.

As palestras foram gravadas e serão transpostas para livro, com a chancela da Blackwell Publishers. Entre elas destaco duas, sem desmérito para as restantes:
a) "Ethical analysis of the use of animals for sport" de Madeleine Campbell pela forma objectiva e clara como expôs a dilemática no uso de cavalos para desporto.
b) "The Justice of Animal Use" de Martin Whiting que explora a transposição (ou não...) do Princípio da Justiça para o âmbito da ética animal.

De realçar que a conferência foi seguida em directo pelo Twitter (#ICVAE), tendo mesmo sido feitas perguntas aos palestrantes por essa via, e também pela plataforma NOVICE (Animal Welfare Group) onde, através do trabalho dactilográfico extraordinário de uma outra bolseira, Rowena Packer, se conseguiu um elevado nível de discussão que ainda hoje perdura.


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Podemos privatizar o bem-estar animal?

Quer queiramos, quer não, as privatizações estão na ordem do dia. Enquanto se discute politicamente onde se deve colocar a fronteira entre aquele que pode ser gerido pelo mercado e o que deve ficar nas mãos do estado, queria trazer para o animalogos uma pergunta provocadora: Podemos privatizar parte do sistema responsável pela protecção do bem-estar animal?

Para acalmar quem fica imediatamente chocado com a ideia, deixe-me fazer o paralelo com a agricultura biológica. Quem escolhe este modo de produção, seja de plantas ou de animais ou ambos, e quer colocar os seus produtos no mercado como provenientes de agricultura biológica tem que participar num programa de certificação. Existem vários organismos privados credenciados para fazer o controlo e a certificação, cada um funcionando com a verba gerido pelos pagamentos dos produtores. O Estado não certifica, delegou esta capacidade – e é assim em muitos estados-membros na União Europeia. 

 
Podíamos considerar um esquema semelhante para as normas de bem-estar animal?

Há uma diferença importante que tem a ver com a obrigatoriedade. O agricultor pode optar pelo modo de produção biológico ou a agricultura convencional. Pode ainda escolher produzir segundo as normas de agricultura biológica, mas vender os produtos sem rótulo de biológico, e assim não precisa de certificação. No que diz respeito às normas de bem-estar animal definidas na legislação, quem mantém animais não tem opção, tem que cumprir. Logo, se o esquema de fiscalização for privado e financiado por quotas, obriga-se todas as pessoas que mantêm animais que são cobertos pela legislação a pagar. Por outro lado, isto não é diferente do que ocorre em muitas áreas mesmo que não privatizados. Se quero ter um passaporte tenho que pagar, se quero conduzir o meu carro na estrada tenho que pagar a revisão. 

Mas então, por que razão pensar em privatização, porque não simplesmente começar a cobrar as inspecções e a administração ligada a licenciamentos e deixar que estas receitas financiam a actividade dentro da administração pública do qual agora faz parte? O especialista em administração pública, economia ou direito terá o seu ponto de vista sobre a questão, o meu é de um utilizador de um sistema público que parece padecer gravemente de recursos. Perante o actual cenário português de contenção financeira, parece-me pouco provável que algum gestor da administração pública terá a coragem de propor a contratação de mais técnicos – que é exactamente o recurso que mais limita uma fiscalização eficaz e rápida. Ao contrário disto, uma entidade privada podia criar postos de trabalho para pessoas qualificadas, o que seria uma vantagem adicional.

Será um sistema privado menos transparente, mais influenciável do que um sistema público? Não me parece óbvio que assim seja; se criada uma entidade privada para fazer parte dos trabalhos, este terá naturalmente que relatar à autoridade competente que mantém a ultima responsabilidade. 

Será mais caro? Um sistema privado com recursos suficientes para funcionar será naturalmente mais caro do que um sistema público com falta de recursos, mas não precisa de um orçamento maior do que um sistema público com meios adequados. O trabalho a executar é o mesmo e não é no nível técnico que os salários no sector privado são mais altos do que no público. Será inevitavelmente mais caro para o utilizador do que o actual sistema que não cobre taxa nenhuma – mas a comparação é pouco relevante, as taxas serão introduzidas mesmo se não houver delegação nenhuma de capacidades. 

Fiz a minha proposta: que consideramos a possibilidade de criar entidades privadas com um papel na promoção do bem-estar animal. aos quais o estado pode delegar parte do trabalho nesta area. E a vossa resposta, caros animalogantes?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Trabalhar com Bem-Estar Animal em Portugal: Gonçalo Pereira, Universidade Lusofona e PsiAnimal

Gonçalo Pereira, professor auxiliar, Universidade Lusofona de Humanidades e Tecnologia

Olá Gonçalo, lançaste recentemente a PSIANIMAL - Associação Portuguesa de Terapia do Comportamento e Bem-estar Animal. Podes contar um pouco mais sobre esta associação?
Esta associação surgiu de um grupo de vários investigadores, clínicos, etólogos e "welfarists" que tinham um desejo comum... poder contribuir na divulgação e desenvolvimento da terapia comportamental e bem-estar em animais (não humanos) em Portugal. Assim, somos uma equipa multidisciplinar (tal como é requerido para o desenvolvimento do Comportamento e Bem-estar Animal), constituída por veterinários, biólogos, etólogos, psicólogos, antropólogos, entre muitos outros profissionais. Todos nós temos um mesmo propósito: a concretização duma associação portuguesa forte com projecção nacional e internacional em comportamento e bem-estar.
Porque é que esta associação fazia falta em Portugal?
Até ao momento não havia nenhuma organização em Portugal que fizesse o trabalho a que nos propomos. Ou seja, associações de Etologia há, associações profissionais nas diferentes áreas também há, associações de protecção animal há, mas queremos ser mais do que isso. E porque somos uma equipa multidisciplinar que engloba várias áreas profissionais e científicas acreditamos poder ser uma entidade que possa apoiar, em frentes diversas, entidades públicas e/ou privadas, podendo inclusivamente participar em projectos de regulamentação de actividades relacionadas com o bem-estar animal (como órgão consultivo) e com a terapia comportamental. A PsiAnimal tenciona assim valorizar e dar a conhecer toda a riqueza desta área ainda muito pouco desenvolvida em Portugal. Felizmente, a procura crescente junto da população em geral e a nível académico fortaleceu estas nossas convicções na necessidade imperativa da criação desta associação.
Quem se pode fazer sócio?
Temos 3 tipos de sócios:
1. Os sócios efectivos, que são os profissionais que trabalham e investigam na área do Comportamento e Bem-estar (todos os diferentes académicos, investigadores ou profissionais que tenham um trabalho relacionado com esta área);
2. Os sócios afiliativos, que são os profissionais que trabalham em conjunto com os anteriores, no sentido de darem continuidade ao trabalho nesta área (treinadores, tratadores, pessoal técnico que trabalhe directamente com o Comportamento e Bem-estar);
3. Os sócios estudantes de cursos relacionados com o Comportamento e Bem-estar (que serão futuros sócio efectivos).
Para mais informações poderão contactar a PsiAnimal para: psianimal.geral@gmail.com Estamos a preparar já o I Congresso da Associação para 17 e 18 de Dezembro!
És pioneiro nesta área de actividade em Portugal. Há quanto tempo trabalhas com terapia comportamental em animais de companhia? Como começou?
Não sei se serei pioneiro, mas sei que estou cá para o que for necessário e defender aquilo em que acredito! Comecei ainda como estudante de medicina veterinária a trabalhar em Bem-estar Animal com organizações não-governamentais de Bem-estar e Protecção Animal, nacionais e Internacionais. Em terreno nacional, comecei por trabalhar para a Liga Portuguesa dos Direitos do Animal (1995). Depois tive um convite para ser consultor da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA), e a partir daí passei a trabalhar com várias organizações nacionais e internacionais (entre as quais a World Society for the Protection of Animals, Cat Protection League, Eurogroup for Animal Welfare, entre muitas outras). Nessa altura estava a terminar o curso de medicina veterinária e achei que a área do Comportamento e Bem-estar era mesmo o que eu queria e acreditava que podia ajudar ao desenvolvimento do meu país. Na altura não havia nada pelo país, e tive que ir fazer formação para o estrangeiro.... Fui então para a Universidade Complutense de Madrid, onde fiz o meu Mestrado em Etologia Clínica e Bem-estar Animal. Depois tive um convite para ser responsável da Disciplina de Comportamento, Bem-estar e Protecção Animal na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, o qual aceitei de imediato. A partir daí comecei a participar em grupos nacionais e internacionais nesta área de investigação e fui convidado para pertencer à Direcção da European Society of Veterinary Clinical Ethology, da qual sou o actual Vice-Presidente. Agora estou a fazer o meu Doutoramento no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, agrupando na minha tese várias áreas que adoro: gatos, comportamento e bem-estar e medicina interna. Acho que vou conseguir provar algumas hipóteses minhas que poderão dar um grande avanço nesta área.... Assim espero!
Como estão os animais de companhia em Portugal – bem ou mal? Melhor ou pior do que há 15 anos?
As mudanças nos últimos anos têm sido muitas mesmo! Em todas as áreas, desde profissionais, como académicos, como investigadores, como políticos, chegando esta mudança ao público em geral (onde se incluem as crianças!). A preocupação com o Comportamento e Bem-estar Animal tem tido um crescente aumento, e exemplo disso são as várias mudanças que imperam desde a nível legislativo, como o aparecimento de um novo partido, pelos animais.... Acho que está tudo mesmo a mudar! Quero acreditar que as mudanças têm sido tantas que dentro de pouco tempo conseguiremos apanhar os mais avançados da Europa. O surgimento da PsiAnimal é também reflexo destas mudanças e que irá certamente contribuir para uma evolução mais rápida e sólida
Há pouco mais do que 2 meses, Assunção Cristas tomou posse como a nova ministra de Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento. Quais consideras ser os assuntos mais urgentes para esta nova responsável máxima de bem-estar animal em Portugal?
Urgentes? Há algo nesta área que não seja urgente? Antes demais, aproveito para desejar à nova Ministra o maior sucesso. Quero acreditar que o bom senso irá imperar, mas tem uma casa imensa para arrumar. Esperemos que dê continuidade a alguns assuntos que foram deixados pelo anterior executivo e que se saiba rodear de quem possa ser uma boa influência para o avanço nacional. Os problemas são muitos, que vão desde áreas como a produção, passando pela área da experimentação animal, animais de companhia (onde se incluem os supostos "novos animais de companhia"), e animais selvagens em cativeiro (parques zoológicos e afins). Enfim, o que poderei dizer à Dr.ª Assunção Cristas, é que se necessitar de apoio consultivo da PsiAnimal, temos entre os nossos sócios vários profissionais que poderão ser a boa influência que anteriormente referi. Por isso, a PsiAnimal dispõe-se desde já a apoiar tanto o Ministério como qualquer outra entidade que de nós precise.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Os animais humanos

Em Julho, os doutorandos do programa GABBA da Universidade do Porto organizaram o seu simpósio anual sobre o tema What makes us human? Todas as apresentações estão agora disponíveis on-line.



Pessoalmente destaco a palestra de Sarah Blaffer Hrdy, cuja Hrdy hypothesis tem sido muito importante para a disciplina de etologia. Fascinante palestra sobre nós os primatas humanas e as nossas estrategias evolutivas.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Pronto para comer como um sueco?


Nunca vi um debate em torno da alimentação ser esgrimido com tamanha ferocidade como o que decorre na Suécia desde há um par de anos sobre a dieta LCHF. O acrónimo quer dizer Low Carbohydrate High Fat e diz respeito a uma dieta que se aproxima bastante da de Atkins, que provavelmente é mais conhecida no mundo lusófono. Ou seja, o minímo de hidratos de carbono - evitando sobretudo os de metabolismo rápido - e quantidades generosas de gordura e de proteína.

Comentar os aspectos nutricionais da dieta ultrapassa as minhas competências, mas penso que os seus efeitos positivos em diabéticos tipo II são bastante evidentes: mantém os niveis de glicemia no sangue mais estáveis do que uma dieta mais rica em hidratos de carbono. Além deste grupo populacional, muita gente afirma sentir-se em geral melhor, livrar-se de problemas gastrointestinais e perder peso com esta dieta. Um aspecto curioso que não consigo deixar de mencionar é a maneira evangelista com que muitos dos convertidos propagam a boa nova. No blogue do qual tirei o cabeçalho deste post podemos ver fotografias dos Swedish LCHF heroes, supostamente heróis numa cruzada contra as recomendações oficiais da Livsmedelsverket, a autoridade de segurança alimentar sueca. Um editorial de um dos principais jornais fala hoje sobre A Guerra da Gordura. Sinal de uma nação que não tem guerras maiores com que se preocupar, mas se calhar também da importância que a alimentação tem na nossa vida, tanto em termos mentais (e sociais) como físicos.

É difícil saber quantas pessoas aderiram à dieta, mas a sua expansão já se nota no sector de lacticínios. Com o consumo de lacticínios gordos a subir, a Suécia depara-se agora com uma falta de manteiga, prevista para durar até ao final do ano. A observação deixa-me ligeiramente perplexa. Quando comecei a minha formação como agrónoma há 20 anos, ainda se media a produção de uma vaca leiteira em quilos de gordura de manteiga, mas toda a gente dizia que era uma medida antiquada que não fazia sentido perante a preocupação light dos consumidores.

Surpreende-me menos a notícia recente, que muitos dos estudos com resultados em favor da dieta foram financiados pela indústria de carne estadounidense. Mas alerta para um aspecto discutível de uma dieta que tende a ser (embora isto possa ser evitado) baseada em produtos de origem animal, e cuja pegada ambiental é grande.

PS: O eventual choque cultural com o post anterior não é intencional - só após escrever me apercebi do aspecto paradoxal.